O CRIME DE TRAIÇÃO À PÁTRIA:

O CRIME DE TRAIÇÃO À PÁTRIA:

O Art.º-141.º Do Código Penal é simples e claro: "Será condenado na pena de prisão maior de vinte a vinte e quatro anos, todo o português que: 1.º intentar, por qualquer meio violento ou fraudulento ou com auxílio estrangeiro, separar da mãe-Pátria ou entregar a país estrangeiro todo ou parte do território português, ou por qualquer desses meios ofender ou puser em perigo a independência do País. 2.º Tomar armas, debaixo das bandeiras de uma nação estrangeira, contra a Pátria". Simples e claro como o juízo do nosso povo, quanto à forma como a Pátria foi mutilada.

¡ UM HERÓI PORTUGUÊS, RUI ALBERTO MAGGIOLO DE GOUVEIA !

HOMENAGEM AO TENENTE-CORONEL RUI ALBERTO MAGGIOLO DE GOUVEIA.
"«Viemos para aqui para morrer. Estamos prontos para morrer!» Foram as últimas palavras ouvidas do tenente-coronel do Exército Português, Rui Alberto Maggiolo de Gouveia, fuzilado pela Fretilin em Timor, com outros elementos da UDT, em finais de Dezembro de 1975.
Em Agosto, à causa da traição e cumplicidade da tropa criminosa de Abril com a Fretilin, juntara-se à UDT - "por amor a Portugal e a Timor", como disse -, pensando contribuir para evitar a invasão indonésia. "

Assim morrem os heróis. Assim morreu o tenente-coronel Rui Alberto Maggiolo de Gouveia. E, quem assim morre, é orgulho para os pais, para a esposa, para os filhos, para os portugueses de Lei e para a Pátria. Morreu como herói da Fé e da Pátria: e, desta forma, não é a morte que coroa a vida, é a glória eterna em Deus que sublima tal morte. E mais vale morrer com glória do que viver com desonra - eram desta têmpera os portugueses de antanho - foi a ideia-força na vida deste Homem, deste Cristão e deste oficial do Exército Português, Maggiolo de Gouveia. Se, como piedosamente cremos, ele continua a viver no Céu, junto de Deus, também viverá no coração dos timorenses enquanto a memória dos homens não se desvanecer. 



ANTES DE MORRER, CADA UM FAÇA A SUA ORAÇÃO !

"Em 12 de Agosto de 1975, o tenente-coronel Rui Alberto Maggiolo Gouveia foi à Rádio de Díli dizer que já não era comandante da Polícia de Segurança Pública e que abandonava o Exército Português. Porque aderira, "por verdadeiro amor" à verdade, a Timor e a Portugal, "ao movimento UDT", o partido que no dia anterior desencadeara uma acção militar.

A declaração é recebida com perplexidade pelos militares portugueses e enfurece a Fretilin que a 21 o prende e encarcera no Quartel-General em Taibesse. O governador português Lemos Pires ordena, uma semana depois, a saída dos militares metropolitanos para a ilha do Ataúro, donde
partirão em definitivo na manhã de 7 de Dezembro, início da invasão indonésia do território.

Maggiollo Gouveia é dado como desaparecido "em condições de grande perigosidade e de ameaça à ordem pública". Durante 11 anos. Após o que a família requere judicialmente a sua morte presumida. Desde há 11 anos que a viúva recebe pensão de sobrevivência e de preço de sangue.

Na tarde próxima segunda-feira, em Mação, o ministro da Defesa, Paulo Portas, e o novo chefe do estado-maior do Exército, Valença Pinto, prestam-lhe honras oficiais numa cerimónia fúnebre que a família pretende discreta.

PÚBLICO ontem o porta-voz do Estado-Maior do Exército (CEME), que está a organizar a cerimónia. Segundo o tenente-coronel Vasco Pereira, Maggiolo Gouveia terá um enterro de acordo com as "honras regulamentares", disse ao o antigo tenente-coronel terá "naturalmente direito" às honras de Estado a que "qualquer militar no seu posto" também teria - escolta militar e salva de tiros.


Entrevista do Jornal "O PÚBLICO", Quarta-feira, 13 de Agosto de 2003.
Pela primeira vez um dos Assassinos fala sobre a Execução do Oficial Português Maggiolo Gouveia.

Por Adelino Gomes.

O olhar fugidio, as palavras mal sussurradas denunciam o embaraço de L. (letra escolhida ao acaso, com intuitos óbvios de lhe preservar o anonimato) quando se senta na cadeira para a entrevista. As palavras queimam-lhe na boca, parece mais de uma vez à beira da desistência.
Chega, em dado momento, a deixar cair a sua identificação completa, número mecanográfico do Exército português (a quem serviu no contingente local entre 1973 e 1975) incluído. Mas logo cai em si e pede, uma vez mais, o anonimato. O seu nome enquanto elemento do pelotão que fuzilou o antigo chefe da polícia de Timor é conhecido por várias pessoas ligadas no passado à Fretilin. Mas esta é a primeira vez que aparece a assumir a participação dele próprio na acção. Num encontro a sós, mas que sabe se tornará público, porque é a um jornalista que faz o relato do que viu e fez em duas noites consecutivas, por alturas do Natal de 1975 na região montanhosa de Ai, Timor-Leste

P - Qual a sua função na Fretilin?

L - Era soldado-condutor.

P - Tinha estado no Exército português?

R - Sim. Fui da incorporação de 1973.

P - O tenente-coronel Maggiolo Gouveia esteve detido durante semanas e semanas em Díli, no Quartel-General e no Hospital. Quando é que o evacuaram para Aileu?

R - Antes da invasão indonésia [em 7 de Dezembro de 1975]. Não sei a data exacta.

P - Onde é que ficou?

R - No quartel [de Aileu] numa zona chamada Matadouro, ao pé do
Hospital.

P - Sabe se foi torturado durante esse tempo?

R - Voltaram a bater-lhe com chicote [como acontecera em Díli, pelo menos nas primeiras semanas após a sua prisão].

P - Houve algum julgamento?

R - Não. Membros do Comité Central [CC da Fretilin, partido que dominava Timor desde finais de Agosto e tinha em Aileu a sua zona de maior fidelidade] começaram a reunir-se para verem se podiam liquidar aquela gente toda.

P - Qual gente?

R - Os presos. Além do tenente-coronel Maggiolo Gouveia havia presos da UDT e da Apodeti.

P - Quantos?

R - Não sei. Muitas dezenas.

P - Quem eram os membros do CC que se reuniam?

R - José da Silva, Sebastião Sarmento, Adão Mendonça, furriel Gil Ribeiro, Domingos Ribeiro e M. [letra escolhida ao acaso, para representar o nome de uma figura da Fretilin ainda viva, ao contrário dos restantes, todos mortos durante a luta contra a Indonésia].

P - Nesses nomes que está a dizer há gente que não pertencia ao CC.

R - Havia também o Sebastião Montalvão, o Alarico Fernandes, o António Pinheiro e mais gente que já esqueci.

P - Quem dirigia então efectivamente o partido era Nicolau Lobato. Ele também participava nessas reuniões?

R - Não. Quando lhe contaram ele disse: "Nós podemos prender, mas não podemos matar".

P - Onde é que se reuniam?

R - Num bar.

P - Como é que você soube?

R - Mandaram-me chamar a casa, era de noite. Tinham estado a comer leitão assado e a beber cerveja, vinho, whisky. Diziam: 'Temos que acabar com aquela gente toda da UDT. E com o Maggiolo também'.

P - Quando aconteceu isso?

R - Não sei a data exacta, foi em Dezembro.

P - No princípio, no meio, no fim?

R - Pode ter sido por volta do dia 25. Eram umas onze da noite quando me chamaram. Fui ter com eles ao bar, deram-me de beber. Diziam: 'Temos que tomar conta disto. Não podemos deixar vivo o Maggiolo, se não amanhã ou depois o Maggiolo é que é presidente e nós sofremos na mesma".

P - O que é que lhe disseram?

R - Mandaram-me à prisão chamar o comandante. O primeiro cabo Pedro Aquino levava uma lista de uns 25. Foram chamando um a um. Formaram e depois conduzimo-los a pé para fora de Aileu. Atravessámos a ribeira e parámos junto de uma vala, num local chamado Aisirimu. Eu soube depois que a vala já estava aberta desde as três horas da tarde.

P - O que fizeram a seguir?

R - Eu disse-lhes: "Se têm coragem, fujam".

P - E alguns fugiram?

R - Não. O tenente-coronel Maggiolo respondeu: "Viemos para aqui para o buraco para morrer. Estamos prontos para morrer". Então eu disse: "Antes de morrer, cada um faça a sua oração".
P - E eles? Rezaram o terço em conjunto?
R - Não. Uns rezaram o "Pai nosso que estais no céu", outros fizeram o exame de consciência.

P - Rezaram alto?

R - Não, em silêncio.

P - E depois?

R - Mandei um tiro. Não sei se acertei ou não.

P - Além de si, quem eram os elementos do pelotão?

R - O 1º cabo Pedro Aquino e alguns soldados de um pelotão de milícias, da 2ª linha.

P - Qual dos prisioneiros morreu primeiro?

R - Não sei. Não quis ver o fim. Foram os milícias que os enterraram.

P _ A que horas foi a execução?

R - Fomos buscá-los à volta das 11 [da noite]. Deve ter sido às 24 horas.

P - Havia gente a assistir?

R - Sim.

P - O que é que disseram? Não estavam indignados?

R - O povo não disse nada, tinha medo.

P - Arnaldo Araújo [que veio mais tarde a ser governador de Timor, nomeado pela Indonésia] também estava preso em Aileu, ou foi deixado em Díli?

R - Estava em Aileu.

P - Como é que se explica que eles tenham executado Maggiolo Gouveia, um oficial português, e poupado Arnaldo Araújo, que era considerado pelos nacionalistas um dos maiores traidores da história de Timor pois tinha colaborado com o Japão, durante a Segunda Guerra, e agora liderava os integracionistas da Apodeti?

R - Aranaldo Araújo foi dos últimos [a serem executados]. O nome dele estava noutra lista que me deram no outro dia com gente da Apodeti. Estávamos a passar a ribeira, era de noite também, e eu disse-lhes: "Têm que fugir. Se não fogem, morrem".

P - E eles fugiram?

R - Só alguns. Desconfiaram. Mas o Arnaldo Araújo fugiu com o filho, Zeca, que veio mais tarde a morrer em Ainaro.

P - Como é que você, simples soldado, lhes dizia para fugirem? Não sofreu represálias depois?
R - Na altura eu ainda tinha voz para discutir com os comandantes.
Disse-lhes: 'Vocês mandaram-me fazer isto. Têm que tomar as [vossas] responsabilidades, amanhã ou depois'. Mas eles já foram todos para águas de bacalhau.
P - É estranho ter deixado fugir um homem que veio a ser governador pró-indonésio sem sofrer represálias dos que vos mandaram matá-lo.
R - O Arnaldo Araújo a seguir ainda gritou na rádio várias vezes o meu nome.
Dizia: "Vem-te render". Mas eu estava no mato e não fui. Ainda estive preso [pela guerrilha] três meses, chamaram-me traidor. [Os indonésios] Apanharam-me num abrigo em 1978. Fiquei seis anos na prisão".

Entrevista feita em 23 de Maio de 2003 em Díli no âmbito da preparação de um livro do autor sobre o primeiro ano da independência de Timor-Leste.