O CRIME DE TRAIÇÃO À PÁTRIA:

O CRIME DE TRAIÇÃO À PÁTRIA:

O Art.º-141.º Do Código Penal é simples e claro: "Será condenado na pena de prisão maior de vinte a vinte e quatro anos, todo o português que: 1.º intentar, por qualquer meio violento ou fraudulento ou com auxílio estrangeiro, separar da mãe-Pátria ou entregar a país estrangeiro todo ou parte do território português, ou por qualquer desses meios ofender ou puser em perigo a independência do País. 2.º Tomar armas, debaixo das bandeiras de uma nação estrangeira, contra a Pátria". Simples e claro como o juízo do nosso povo, quanto à forma como a Pátria foi mutilada.

DESCOLONIZAÇÃO, OU CRIME?

A "Ponte Aérea" de Angola para Lisboa com início a Junho de 1975 até fins de Novembro, desse mesmo ano. Cinco meses e meio para evacuar mais de meio milhão de pessoas que desta forma disseram adeus a Angola. Centenas de aviões, milhares de voos, (900 mil voos) a um ritmo impressionante de mil pessoas transportadas por dia. Aos números soma-se a crónica dos ressentimentos, sobre a dramática situação. A confusão baralha-se, calam-se os dramas, sofresse e chora-se em silêncio. E faz-se luto pelos familiares ou amigos assassinados. E os arautos do tempo repetem o veredicto: "Descolonização Exemplar", "Ventos da Histórica", passando para... "Descolonização Possível", surge como uma (Desresponsabilização), como um purgar do crime realizado sobre a vida de milhões de pessoas, e sobre a realidade Histórica de Portugal. Acto de Cobardia, de Canalhice, e de Crime.

Gonçalves Ribeiro, mais tarde alto-comissário para os refugiados, afirma o seu pudor em abordar a matéria em causa, que define como "a experiência da sua vida". Mal ou bem, é ele o nome que todos apontam como coordenador do air-lift-Ponte Aérea organizada por país estrangeiro, EUA; que em cinco meses e meio transportou mais de meio milhão de pessoas de Nova Lisboa e Luanda para o aeroporto da Portela-Lisboa.
"Houve necessidade de um certo voluntarismo. Usava-se o rádio para chegar aos sítios mais isolados de Angola, à mata, para tentar saber onde é que havia gente a precisar de transporte. Mandávamos lá a Força Aérea para as trazer aos dois grandes aeroportos. Chegavam de todo o lado, exaustos, traumatizados, sem nada.
Chegou a uma altura em que a tropa portuguesa já se tinha vindo quase toda embora e mesmo em Luanda as pessoas só se sentiam seguras no aeroporto. Chegámos a ter lá 5.000, numa caserna para 500 homens".
A comida era a da base, quando havia, as instalações inexistentes. As possíveis. O homem da ponte aérea suspira. "Para ser diferente era preciso que houvesse aqui uma situação estável".

O desespero era tal para entrar num avião que as pessoas ofereciam o que tinham ou o que lhes restava, aos funcionários de check in, aos pilotos, a quem encontrassem. Termos de café, comida, álcool, as casas em Angola, os carros, barcos, dinheiro. E quando não era para entrar num avião era para meter lá dentro mais qualquer coisa. Nem toda a gente podia ou tinha tempo de despachar os pertences por mar. Mais ou menos rigoroso no seu trabalho de check in, mais quilo menos quilo e um recorde de 26 horas seguidas ao balcão, João F., nascido em Luanda, funcionário da TAP, viu acontecer muita coisa. O tráfico de influências corria à desfilada, e para quem fosse habilidoso havia sempre um expediente para mandar tudo para Lisboa. Os mais modestos iam todos os dias ao aeroporto despachar pequenos embrulhos, os mais ambiciosos certificavam-se de ter tudo do outro lado do mar antes de dizer adeus a Angola. Coisa que não deixava de ser arriscada: A ex- João F., que despachou o frigorífico e o fogão, desapareceram-lhe os dois no aeroporto da Portela. E diz:
"Houve muitos crimes e muita desonestidade. As pessoas traziam o que era delas. Gente que nunca tinha estado em Angola chegava ao sítio do aeroporto onde as coisas se iam amontoando e escolhia o que queria. Houve nitidamente um roubo, e um abandono desta gente".

Regressado a 1 de Novembro, de 1975, com um pedido de transferência, teve de procurar outro emprego: só foi readmitido na TAP dois anos depois e para cúmulo retiraram-lhe o tempo da ponte aérea."Os registos perderam-se e ninguém se lembra", conclui com um encolher de ombros. "Dizem eles".
Em Nova Lisboa a situação era tremenda. Havia uma espécie de grande hangar e as pessoas chegavam das mais variadas formas, carregadas de malas. Como não as podiam levar - havia um limite de 30 kg por passageiro - havia uma montanha incrível de bagagem deixada para trás. Não havia condições nenhumas, a sanita era um antigo avião de campanha completamente recuperado que um oficial qualquer tinha resolvido pôr ali como monumento. Imagine-se, um avião que tinha andado na guerra!

"Quem controlava eram os guerrilheiros da Unita, que tinham um aspecto inacreditável. A tropa já se tinha vindo embora. Assim tínhamos de discutir horas com os UNITAS que queriam entrar nos aviões para ir lá buscar pessoas, e assegurar que eles não inutilizassem o avião. Era essa a minha maior preocupação quando estava no solo".
José Nico, brigadeiro da Força Aérea, na época capitão, não esconde a amargura que lhe ficou.
"O que andei a fazer sobretudo, foi evacuar os militares e suas famílias. Naqueles tempos era tudo ao contrário. Evacuava-se a tropa antes dos civis. A situação era tal que um dia, quando me pediram para ir complementar a acção dos aviões civis — porque o grosso da ponte propriamente dita foi feita por eles — e embarcar aquela gente que estava no aeroporto de Luanda à espera em vez de uma companhia de militares, os soldados se revoltaram. Armaram uma situação tão crítica que obrigou a uma intervenção".

Cala-se, pensativo. Viveu a juventude em Luanda, foi estudar para a metrópole. O resto da família regressou antes da independência. À excepção do pai, que só voltou em 79. "Era empregado numa companhia que não fechou. Teve de se mudar para um quarto ao lado do escritório para não andar na rua, mas mesmo assim iam lá visitá-lo muitas vezes para o revistar. O mesmo que quer dizer roubar. Ele não se abre muito". O silêncio quebra-se uma última vez.
"Foi um abandono de todo o povo português. Vivi muitos anos revoltado".

É a 11 de Novembro de 1975, que tudo é suposto acabar. Embora oficialmente a "Ponte Aérea" é dada por terminada no início de Dezembro.
A esposa de Vitor B. regressa no dia anterior, num avião regular da TAP. Agora e durante algum tempo, os funcionários da imigração ainda apõem nos passaportes o carimbo Luanda-Portugal-saída.
Resta na cidade o alto-comissário, almirante Leonel Cardoso e os seus colaboradores mais próximos, além de uma companhia de pára-quedistas, dois helicópteros e dois navios.
No palácio do governo, contra um painel do mapa-mundi com as Caravelas Portuguesas, o Leonel Cardoso lê a declaração de entrega da soberania do território. Já que não há mais ninguém na sala além dos portugueses e de um batalhão de jornalistas.
Ninguém para cantar o hino,(...) Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal (...)" 
Logo de seguida, Leonel Cardoso, séquito e bandeiras partem nos navios, pela calada da noite, "escondidos da vergonha, dos gritos dos nossos presos, dos nossos mortos, de milhões de vozes que clamavam por Justiça" pelo crime, pela traição e pela cobardia dos políticos e militares que atraiçoaram séculos de História, entregando ao inimigo as vidas de milhões de seres humanos portugueses: à crueldade, à morte, ao abandono e à incerteza de um futuro.


Esquecer!?

NUNCA, É IMPOSSÍVEL!!!

Rogéria Gillemans